Novas dinâmicas, novos movimentos

September 29, 2021


Cidades e centros urbanos têm sido, ao longo da História, o núcleo de pandemias e crises sanitárias. Mas também são, indiscutivelmente, o epicentro da criatividade e da inovação. Se a pandemia do coronavírus pode alterar a vida nas cidades, é também nelas que se encontram as respostas para uma nova dinâmica de trabalho, de deslocamento, de relações comerciais e sociais.

Como as cidades vão se adaptar a essa nova realidade? É uma circunstância sem precedentes, que vai exigir um esforço coletivo na busca de saídas criativas. Elas existem – e certamente passam pela tecnologia para serem executadas. A tecnologia é instrumental para a análise, embasada em informações, dos novos modelos de mobilidade urbana pós-pandemia.

Algumas metrópoles pelo mundo já começam a apresentar alternativas para a nova realidade. Uma das necessidades mais evidentes é a do distanciamento físico – basicamente, o oposto da premissa em que cidades são construídas e se desenvolvem. Não se sabe se esse tipo de iniciativa vai se manter, mas o planejamento urbano deve incorporar algumas dessas preocupações daqui em diante, como alargar calçadas, por exemplo.


Adaptações no transporte público


A mudança na forma como as pessoas se deslocam nas cidades deve ser uma das mais profundas. Primeiramente, porque até mesmo a utilidade de se locomover está sendo colocada em xeque. Como se devem evitar aglomerações e meios de transporte com grandes concentrações de pessoas, e o home office tem se mostrado uma alternativa viável para muitas atividades, a tendência é que algumas empresas distribuam suas operações físicas em unidades menores, facilitando o acesso de seus colaboradores.

Com isso, o transporte público é um dos setores em que a adaptação se faz mais urgente. O volume de gente a ser transportada já caiu drasticamente. Carros parecem ser a resposta pronta. Mas o custo ambiental e de saúde pública da poluição que eles descarregam no ar, como sabemos, é impraticável no médio e longo prazo.

Nesse sentido, a diminuição nos níveis de emissão de poluentes tem sido um dos efeitos mais benéficos do isolamento a que muitos estão submetidos. Duas semanas depois do lockdown ser anunciado no Reino Unido, a poluição por dióxido de nitrogênio em algumas cidades caiu 60% se comparado ao mesmo período de 2019. A Nasa revelou que em Nova York e outras regiões metropolitanas dos Estados Unidos a poluição por dióxido de nitrogênio foi 30% menor do que a média mensal entre 2015 e 2019.


De volta para o futuro


Esse é um resultado que se deseja manter. Um modal que se apresenta como solução pronta é a bicicleta. Com ruas fechadas para o tráfego de veículos e distâncias mais curtas, parece natural que o transporte evolua para modais individuais e pouco poluentes. A bicicleta se revela como alternativa viável, barata e acessível.

Mesmo um modo de transporte tão antigo quanto à bicicleta vem sendo transformado pelo avanço tecnológico. A bicicleta de hoje pode ser elétrica, compartilhada com outras pessoas, com pneus que não furam e rastreada por GPS, se tornando mais uma fonte de dados de mobilidade urbana. Não se redesenha a maneira de milhões de habitantes se locomoverem sem a análise desse enorme compilado de dados, coletados e processados com inteligência. Identificar onde estão os nós viários, os fluxos de força de trabalho, onde montar novas ciclovias, para onde desviar ônibus e rotas de avião, tudo isso demanda um alto nível de compreensão do comportamento de sistemas muito complexos. É um imenso desafio para todas as cidades do mundo, para as empresas de tecnologia, para os governos e os cidadãos. E ele só será superado se pensarmos e trabalharmos juntos, com inteligência.

Roberto Speycis

Co-fundador e CEO da Scipopulis, empresa de inovação em cidades inteligentes e dedicada a mobilidade urbana, e doutor em Ciência da Computação pela Universidade Pierre et Marie Curie – Paris VI – Sorbonne Universités.

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